terça-feira, 14 de junho de 2016

Coisas em dia de futebol

A vida deve ter parado neste país! 
Está toda a gente entregue à nobre causa do futebol, com um súbito ataque de amor à nação. Parece-me, e por favor não me julguem mal, que este sentimento de nacionalidade se reduz às coisas da  bola. 
O povo puxa pela selecção mas devia a selecção puxar pelo povo. 
Devia sim!  Cada um, na tarefa que foi distribuída pelo Criador, faz o que pode e consegue. Depois não leva palmas. Leva palmadas, quando calha!
Nunca percebi muito bem este fenómeno e não me vou pôr a discuti-lo em público.
A minha selecção neste momento é a equipa da geringonça. Esses sim, podem fazer alguma coisa pela vida aqui. 
Estou tão seca por dentro. Faltam-me entusiasmos. Falta-me saudade!
E pelos sons que me chegam, ou melhor pelos silêncios que me chegam, faltam golos à equipa de Portugal!

domingo, 5 de junho de 2016

Parabéns, papá!

O meu pai nasceu há noventa anos. 
Há que celebrar um homem que viveu muito além dos noventa no tempo um tanto mais curto que lhe coube. Viveu para lá de convenções. Venceu doenças que eram consideradas " morte certa". Dançou muito e cantou à moda dos ídolos da época. Namorou que se fartou. Escreveu e pintou, porque sim, porque gostava e porque a sensibilidade assim pedia. Leu imenso. Conviveu com poetas, escritores e pintores. Foi enfermeiro de vocação e a morte foi sempre uma inimiga a abater.
Foi um Don Juan perfeito e acabado, com namoradas nas várias esquinas da vida. Até ao dia em que resolveu deixar de partir, ou ajudar a partir, corações.
Foi meu pai, mas nunca "exerceu" essa paternidade com a superioridade de quem sabe mais, já viveu mais os assuntos da vida. Era, como se diz agora, um parceiro, já que a minha educação era o empreendimento. Ensinou-me a gostar de cinema e de poesia. Ensinou-me a aprender com os acontecimentos da vida. Tinha as frases "chave" com que ilustrava os ensinamentos. Muitas eram as máximas consagradas, como: os cães ladram e a caravana passa. Outras eram importadas de amigos e ajeitadas por ele mesmo: nunca faltou miséria ao miserável, nem dinheiro ao gastador. Outras ainda nasceram numa alma aflita, a sua, quando a vida estava a doer: "eu acredito em Deus e Deus acredita em mim."
Hoje faz noventa anos! Parabéns, papá!