terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

"Eppur, si muove !".

Poema para Galileo

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.
António Gedeão


Galileu é uma das figuras da História que nos habituamos a respeitar, desde os nossos compêndios de Física. Mais do que respeitar, eu venero o homem, cujo conhecimento foi humilhado pelos poderes da época, nomeadamente da Inquisição.
Galileu nasceu a 15 de Fevereiro de 1564, em Pisa, na Itália de todos os Renascimentos e morreu perto de Florença a 8 de Janeiro de 1642.
"Eppur, si muove!" é, segundo a lenda, a frase pronunciada por Galileu, após ter jurado que renunciava à sua teoria de ser a terra a girar à volta do sol e não o contrário, como se acreditava até Copérnico, o primeiro homem da Ciência e dos Astros a pôr em causa essa "verdade".
Eu queria agradecer-te Gedeão, poeta nosso, homem da ciência também, por teres, em devido tempo, feito o devido agradecimento, em nome dos milhões de homens, entre os quais me incluo.
É nestes momentos que eu tenho pena de não poder falar da Ciência, como o que a estudaram.
Fico-me pelas letras que eu estudei e de que tanto gosto.
E é juntando as letras que eu me aproximo dos homens sábios que sabem transmitir, de modo simples, o enorme conhecimento que possuem.

1 comentário:

Águas de Março disse...

Bonita e justa homenagem a um homem grande na poesia também grande de Gedeão.
Copernico, Galileu, Tycho Brahe, e noutras àreas tantos outros, que só podemos admirar e respeitar.
Eppur, si muove!
Beijinho, linda!