segunda-feira, 13 de junho de 2005

" Da lei da morte libertando"

nenúfar
Adeus ao poeta, pelas suas próprias palavras!

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

3 comentários:

C.S.A. disse...

Sim, Madalena, tenho os olhos rasos de lágrimas. Um beijo.

Incompetente disse...

E no "trabalho"?
Quantas leituras, hem, Madalena?!
Do mal, o menos. Ainda assim, vai-se o escritor, fica a obra!

Ni disse...

Olha Madalena,só consigo dizer isto!
"Urgentemente"

É urgente o amor
É urgente um barco no mar


É urgente destruir
certas palavras,
ódio,solidão e crueldade
alguns lamentos
muitas espadas

É urgente inventar alegrias,
multiplicar os beijos,as searas
é urgente descobrir rosas
e rios e manhãs claras

Cai o silêncio nos ombros
e a luz impura até doer
É urgente o amor
é urgente permanecer.

E deixou-nos... o José Fontinha.
Permanece connosco o Eugénio de Andrade