segunda-feira, 7 de novembro de 2005

O gato Pinóquio

Em casa da minha avó havia um gato.
Não se mexia, era enorme e estava sempre sentado, com o ar altivo que os gatos têm.
Não era um bibelot. Era uma instituição.
Ninguém se aproximava muito do Pinóquio - era assim que ele se chamava - não fosse acontecer alguma coisa.
(Que eu nem sei bem o que é que podia acontecer a um gato parado, como era aquele.)
Um dia, não sei a que propósito, disseram-me que o gato tinha dezoito anos. Estava explicado o comportamento misteriosamente cerimonioso à volta de um gato parado! Repito: um gato parado!
Era o respeito pela idade avançada. Aqueles dezoito anos comparados com os meus seis eram uma eternidade! Era ainda mais velho que o meu primo mais velho.
Soube depois que em gato, ou outro qualquer animal, a idade ainda se agravava. Mas isso eu já ficava muito para lá do meu entendimento.
O Pinóquio era amarelo, de um amarelo desmaiado e tinha umas vagas listras esbranquiçadas ou acinzentadas, ou de uma cor algures por aí!
Era velho, descolorado, parado e triste! Mas pairava uma afeição respeitosa que todos entendíamos e respeitávamos.
Já não me lembro como é que o gato desapareceu das nossas vidas, mas tenho uma ideia de que foi uma tristeza grande para os meus avós.
Este é o único animal da minha infância, já que as galinhas não contam nestas coisas de estimação.
Infelizmente, o único animal da minha infância não me suscita outras memórias para além desta veneração um tanto triste. Tão triste que o nome Pinóquio ficou para sempre associado a este gato.
O pobre brinquedo do Gepetto não ganhou comigo o encanto merecido, por causa do outro Pinóquio.
As memórias bem arrumadas dificilmente se movem, como o gato. E se não fosse hoje uma conversa sobre um pássaro chamado Pinóquio, o gato continuaria parado no recanto da memória doce da casa da minha avó.
Logo um pássaro! Como é que se pode chamar Pinóquio a um pássaro?
catyellow

2 comentários:

Emilia disse...

Olá Madalena!
Eu também tenho um gato. Ou será o gato que me tem a mim, uma vez que foi ele, ou a mãe, ou alguém, que escolheu a nossa casa para o deixar, há sete anos atrás, teria ele talvez dois meses.
Cá ficou, cá vive connosco e reconheço bem esse "ar de gato"!
Transmitem um tal sensação de serenidade e conforto quando estão enroscados ou sentados que é realmente uma pena incomodá-los e até acabamos por nos sentar noutro local, só para não o incomodar!!!!!!!!!!!!!!
Um abraço,
Emília.
P.S. Obrigada pela ajuda.

Pitucha disse...

Pois eu nunca tive animais de estimação (excepto uns bichos de seda mas acho que não entram no mesmo plano). Lá me contentava com os meus manos...
Beijos