terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Os nomes das ruas

Uma coisa de que me lembro bem é dos nomes das ruas em que morei.
A mais simpática talvez tenha sido a Rua dos Velhos Colonos, do lado de lá da Mansão (era assim que se chamava a instituição que acolhia os velhinhos!), mesmo em frente ao posto médico. Na vivenda ao lado morava a família da Natália Luiza, mas ainda não havia Natália Luiza. Lembro-me do seu nascimento e da alegria que trouxe àquela casa e à mana Teresinha, minha companheira de brincadeiras. A casa deles tinha um caramanchão que dava uma sombra fresquinha muito agradável para se pôr a alcofinha da menina.
Mas a Rua que me deixou mais recordações foi, sem dúvida, a Simões da Silva. Morei no número treze e isso não me trouxe azar nenhum. Era uma rua pequena, perpendicular à Pinheiro Chagas, que começava mesmo em frente ao Patriarcado e terminava logo ali, no primeiro quarteirão. Não foi exactamente pela minha casa, mas por ser também nesta rua a casa da minha avó, uma casa antiga, de estilo colonial, com todas as insuficiências que hoje nos trariam desgostos, mas que tinha em compensação um quintal que era um mundo, com capoeiras, muitas árvores de fruto e muito espaço para as nossas brincadeiras.
Há uma Rua Álvaro de Castro com memórias desorganizadas e uma Rua (ou seria avenida?) 31 de Janeiro, que é uma morada do tempo em que o Pai Natal ainda me visitava na noite de 24, onde quase morri de tifo, onde, enfim!, vivi!
Procurei a razão, na minha dita "cultura geral". Rebusquei, fui ao fundo, tirei tudo para fora, como faço quando procuro a chave do carro na minha mala "de mulher" e, como acontece com as chaves do carro, não estava lá.
Há que procurar noutros lugares: bolsos dos casacos que vestimos ontem, proximidades dos fogões ou frigoríficos, lugares muito (mal... grrrr) frequentados por senhoras (Há pouco eram mulheres, agora já são senhoras!) e o pior que pode acontecer é ter de pedir a cópia a quem a tiver!
Como também acontece na vida real, os sítios alternativos às malas de mulher, encontrei mais do que uma chave e não sei qual é a que serve para abrir o mistério do nome da Rua.
31 de Janeiro é data de nascimento (1512) e morte (1580) do cardeal D.Henrique, o que nos ficou a governar por não ter conseguido refrear os instintos expansionistas do sobrinho adolescente e Rei D. Sebastião.
"A revolta de 31 de Janeiro de 1891 foi a primeira tentativa de implantação do regime republicano em Portugal.." diz o Portal da História.

Esta eu acho que serve!!!! É uma data importante. Foi a primeira vez que a bandeira se vestiu de verde e vermelho e se mostrou assim, se deixou içar, na Câmara Municipal do Porto, com as cores que haviam de ficar.
No dia 31 de Janeiro de 1908, é decretada a "expulsão do território nacional europeu de todos os adversários do governo."
Como sempre as histórias repetem-se na História com letra grande. Depois vieram os republicanos e houve perseguição aos monárquicos.
Foi então que o meu avô Abraão Gouvêa foi deportado.
O que tivemos de passar para aprender a democracia!
É por isso bem mais simples baptizar as ruas com nomes de flores, como aqui no Montijo: Rua das Papoilas, Rua dos Cravos Vermelhos...
rua das margaridas
Sinal de menos bom-gosto acho que que é dar às ruas nomes das disciplinas da escola: Rua da Física, Rua da Biologia, Rua da Matemática.
rua da mat
E chamar à rua da minha escola Rua dos Mártires do Tarrafal?!
(É certamente uma medida para combater o "sucesso" escolar!)

9 comentários:

Pitucha disse...

Que post giro!
Eu também acho que os nomes das ruas são tão importantes!
E acho giro os Olivai-Sul terem nomes de cidades das antigas colónias. Que agora são bocadinho de história como a Avenida Cidade de Lourenço Marques.
Beijos

IO disse...

Bonito e completíssimo 'post'. Viva a República!!, beijo, IO.

espumante disse...

Madalena

É extraordinário, mas depois de ler este post sei EXACTAMENTE qual era a tua casa. Pela simples razão de que antes de mudar para a Sommershield, vivi no chamado prédio da TVM que é ao lado do edifício do Patriarcado. Está lá "tudo" inteirinho :))))
Já quanto ao nome das ruas, eu que já morei numa rua que se chamava Kim Il Sung, moro agora numa rua que tem o nome de um pássaro. No meu bairro, na minha residência actual, todas as ruas têm o nome de pássaros. Rua das Cotovias, codornizes, rua do Chapim, rua dos pardais, etc. Eu, como sou um homem cheio de sorte, moro na rua com o mais feio nome de pássaros - maçarico. E esta? Sabias que Maçarico poderia ser um pássaro? :))) Quanto mais não seja, aprendi alguma coisa. Não morasse eu onde moro e jamais saberia que há pássaros chamados maçaricos...
beijinho
:)

grzl disse...

que post interessante e fora do vulgar.
um abraço
graziela

Laura Lara disse...

Adorei, adorei ler-te e, como sempre, aprendi.
Eu, inevitavelmente, tinha que morar na Rua Cidade da Beira. E não escolhi. Quando para cá vim, era a rua B1.
Beijinhos beirenses

Madalena disse...

Eu sei Pitucha, pois os Olivais acolhem muitos amigos meus, como uma Laura que eu cá sei.
Sem brincar: a madrinha do meu filho mora na Rua do Chibuto. Os Olivais estão cheios de homenagens às nossas origens africanas.
Viva a República!, digo eu, como tu, Chuinga, mas ainda bem que o meu avô foi deportado por causa do ideal monárquico. Ou então eu teria nascido em Paranhos, ou coisa que o valha!
Espumante, eu sabia que havia um pássaro chamado maçarico, mas sinceramente não sei por que razão tal conhecimento me veio parar às mãos. Devem ser coisas de textos para crianças... Não me lembro desse prédio. Provavelmente já "cresceu" depois de eu ter saído de lá.
Graziela, obrigada pela visita. Ainda bem que gostaste. Nas tuas paragens também os nomes das ruas devem ter mudado, como em LM/ Maputo.
Beijos, Laura. Sempre a dizer que aprendes, tu, que sabes muito mais do que eu, que sou uma saloia assumida! (lol) Sem ofensa para os saloios, pois aqui refiro-me a uma maneira de estar na vida e não à região de que alguns são provenientes... Se a minha prima Zezinha lesse isto, matava-me!
Beijinhos a todos

Janeca disse...

Ainda me lembro de evitar a Rua da Matemática e a Rua da Física quando ia para a escola. Até me davam calafrios... E coitada da minha priminha Susana que vivia na odeiada Rua da Matemática.
Agora é uma maravilha só tenho de repetir três ou quatro vezes para perceberem o nome do músico Montijense, José Ladislau de Sousa. José...quê?!

Gostei muito do post,

João

Teresa Leite disse...

Sina a minha que vim morar para a rua prof. Bento de Jesus Caraça, Matemático anti-fascista! Meses depois e após diversas agressões à lápide, resolveram chamar-lhe simplesmente R. Bento de Jesus Caraça. Coitado do senhor, ele deve sentir lá nos altos céus o que é dar aulas de Matemática na rua Mártires do Tarrafal! É simplesmente desesperante. Ainda bem que ele já foi e não vê as atrocidades que se cometem.
Continuo com um problema, ninguém atina com o nome (santa ignorância) e moro quase sempre na rua do Caraças!

a aluna disse...

Eu cá moro na rua da Física...frequentemente percebida por rua da tísica... =) gostei muito do post!