sábado, 2 de setembro de 2006

Imitações

Eles têm um caso. Eu sei. Ninguém me engana. Bem: ninguém, ninguém, não será bem assim...
Quase ninguém me engana!
E quem está atrás daquele balcão, todas as noites, não é uma cópia da Sofia Loren, envelhecida precocemente por trabalhar tanto. Esta não faz fitas, como a outra. Esta assiste a muitas fitas e, com uma distinção de diva, apenas assiste.
Aparecem aos molhos. Molhos de gente que ela não quer saber quem são, porque a vida desta gente que anda aos molhos não lhe interessa muito.
Interessa-lhe mais o grande problema da amiga que não foi de férias, a banhos para a Praia da Rocha (ou para a Quarteira?), porque lhe adoeceu o pai, à última da hora, quando ela estava mesmo pronta para partir para a grande aventura das férias.
Coitada da Alice! Logo naquele dia! Há coisas incríveis. Se já tivesse partido, já lá estava e pronto. Alguém tinha dado uma mãozinha ao Senhor Soeiro. Assim... Pobre Alice! Aos quarenta anos ainda amarrada ao juramento que fizera à mãe de nunca abandonar o pai!
(Sempre pensei que o pai da Alice voltasse a casar. É o que acontece a todos os viúvos com uma experiência conjugal feliz. Ou quase feliz! Ou mais ou menos feliz! Ou pelo menos feliz, na prática!)
Chega mais um destes palhaços que julga que é com colas brilhantes nos cabelos e argolas no nariz que os homens levam as mulheres ao altar. Ou ao Registo Civil, que nem todos querem casar pela Igreja!
No tempo dela... Dela e da Sofia Loren, não havia nada disto. Os homens eram mesmo homens, de fato e gravata, sem mais enfeites.
Mesmo os bonitos, como o Glenn Ford que morreu ontem.
Abre a carteira e tira o espelho. Traz sempre um espelho. Às vezes, até conversa com o espelho.
Quando não aparece mais ninguém, fala com o espelho, que é como quem diz, fala sozinha.
Ela sabe que é parecida com a Sofia Loren. Ou era.
Mas as divas também envelhecem e também têm de enfrentar, de alguma forma, os sinais da idade.... Se calhar, também a Sofia original tem um espelho, onde se olha depois de retirada a maquilhagem. Longe dos olhos do mundo. Isto são coisas que o espelho lhe diz, claro.
Mas nem sempre tem de recorrer ao espelho. Há alguém que se aproxima, com vagares de preencher horas para ganhar a vida e que troca com ela as palavras que lhes preenchem talvez o caso. Que têm ou hão-de ter.
Eu sei. A vida é assim!António Lobo Antunes fez ontem 64 anos. Imitei-lhe uma ficção, daquelas que eu gosto, em jeito de homenagem. Ele talvez preferisse um "Viva o Benfica!", mas cá em casa, esses gritos podem ter efeitos indesejáveis!Imagens daqui e daqui
Aproveitei para lembrar mais uma estrela que se apagou: Glenn Ford

4 comentários:

Anónimo disse...

Se o A.Lobo Antunes lesse a tua ficção, não preferiria decerto um VivóBENFICA como homenagem.Eu gostei muito,e soube-me a pouco como diria o Sérgio Godinho.
Beijinhos
ana

teresa disse...

Continuo a dizer e a escrever, não sei o que esperas! Um empurrão? Será insegurança?
Eu tenho as minhas razões e sou leiga no assunto, mas tu, a escreveres assim, que esperas?
Quando olho para a fotografia do Lobo Antunes, actual, sinto uma profunda revolta pela decadência a que algumas pessoas se oferecem...ele assim deseja. É uma pessoa amargurada, desgostosa com a vida (parece-me).
Parabéns pela tua ficção e não fiques por aqui.

IO disse...

Grande, grande 'post', Mad'! Fantástico, parabéns! - uma com 'certa' inveja da tua capacidade.

ARTEMINORCA disse...

Parabéns pelo texto. Li-o com a mesma intensidade com que leio Lobo Antunes! Lu