sábado, 12 de maio de 2007

O meu laço amarelo

Na sua crónica semanal no Jornal Público, edição de ontem, 11 de Maio, José Miguel Júdice, refere-se à pequenina Madeleine que desapareceu há uma semana, denunciando a exploração que os meios de comunicação, mormente as televisões, têm feito desta tragédia.
É uma crónica corajosa, precisamente por ir contra a corrente da emoção que alimenta as audiências, mais do que ajuda os pais ou a polícia, no regresso da pequenina que hoje faz quatro anos de idade.
A mim dói-me especialmente ver aqueles pais destroçados, visivelmente enfraquecidos, sobretudo a mãe, permanentemente na objectiva das máquinas de fotografar ou filmar.
Dói-me ainda mais a crítica, sobretudo a mais velada, pela hipocrisia que encerra a crítica velada, ao comportamento dos pais que deixaram os filhos a dormir e foram jantar. Será que somos todos assim tão perfeitos, no desvelo e na guarda dos nossos filhos? É precisamente aos pais que querem viver com os filhos todos os momentos das suas férias, dos seus tempos livres, que acontecem coisas assim. Não é louvável que o façam? Não é louvável que viajem com os filhos e não percam assim os dez ou quinze dias em que a relação enriquece sobretudo porque nenhum dos pais está com o pensamento agrilhoado ao trabalho? Seria melhor deixá-los confiados a avós ou tios, muito seguros mas muito longe das boas sensações que a disponibilidade das férias e do sol proporciona?
(O meu discurso vai mudar quando eu for avó?!)
Nas férias, o dia tem 24 horas, e há um tempo para estar com os filhos, para brincar com eles, para lhes ensinar a vida, as cores, as cantigas. E há um tempo para recarregar baterias. É, normalmente, enquanto os filhos dormem que os pais descontraem e gozam a companhia um do outro, ou a companhia de amigos.
Quem tem filhos pequenos, ou quem se lembra desse tempo, sabe que é assim.
Será que essa guarda dos pais tem de ser sempre contaminada pelo medo, pelo terror de raptos? Já não bastam os medos que a natureza por si só inflige, como as doenças próprias da primeira idade.
Se não tivesse havido mão criminosa, Madeleine teria hoje a sua festinha de aniversário e a família, além de estar feliz por razões da vida não ter saído dos carris, teria também a felicidade de não estar exposta ao horror da coscuvilhice alheia.
Mas Júdice foi mais longe e recordou outros meninos desaparecidos e outras tragédias que também envolvem crianças, como aquela que dá pelo nome de Darfur.
De repente o pensamento voou-me para Torga e para a página do diário de Agosto de 1945: a "humanidade" consultou os jornais, leu tudo sobre a bomba atómica e "dobrou o jornal aliviada".
No caso da pequenina Madeleine, a humanidade desliga a televisão aliviada. Nem é preciso sair do sofá. Há uma tecla no comando. Todos temos, em relação a este caso a consciência muito tranquila. Não podemos fazer mais nada senão sofrer por ver sofrer e esperar que nos dias azuis da Praia da Luz a esperança de ver reunida a família dos Mc Cahn se torne verdade.
Depois de isso acontecer, que eu quero acreditar que vai acontecer, talvez seja tempo de pensar em tudo o que está ao nosso alcance para minorar os dramas que atingem as crianças de todos o mundo. Elas são o futuro. O nosso futuro!Iamagem da Sky News

2 comentários:

Luísa Hingá disse...

Eu gostava de poder expressar o que sinto como tu o fazes. Pobre mãe.
Um abraço da madrinha de uma Madalena, de 4 anos, também e que me diz "roubaram uma menina, coitadinha".

MCM disse...

Concordo, e muito contigo. Parabéns pelo post!