terça-feira, 25 de setembro de 2007

Curso de Avó

Quando eu era pequena, não queria ser como a minha avó, porque eu queria crescer e não via na minha avó uma pessoa crescida. Via, isso sim, uma pessoa a transbordar de infância A infância toda da minha avó estava ali, à nossa disposição, nas palavras simples, no riso, na capacidade de se espantar e até nas zangas. Eu sabia que, se ela tivesse pernas para isso, correria atrás de nós, à volta dos "canteiros" de couves e alfaces, subiria às laranjeiras e tangerineiras que havia no quintal. Quando nós, os miúdos nos zangávamos, corríamos no quintal atrás uns dos outros até a zanga se cansar e ela fazia "claque", da porta da cozinha, do alto das escadas que não conseguia descer porque "tinha as pernas tolhidas". Tomava partido com ar maroto. Disse sempre que tinha um neto preferido, o único rapaz, mas eu sempre achei que todos éramos preferidos, cada um pela sua razão especial.
Estas lembranças assaltaram-me hoje, trazidas por outras lembranças: as da Laura.
E, de repente, como o outro da maçã que o acordou da sesta, obrigando-o a descobrir uma lei qualquer da Física, percebi que para ser avó "à séria" é preciso não arrecadar as infâncias em sótãos inacessíveis. Os mistérios da infância têm de estar sempre à mão!
Obrigada, Laura, pela lição!O que também ajuda muito é achar que os desenhos das crianças são perfeitos retratos da realidade. Esta dica vem num livro que todos devíamos ler, pelo menos cinco vezes na vida: O Principezinho!
O maior mistério que trago de criança é o da telefonia. Como é que gente gorda como a Tia Zita cabia no aparelho mais pequeno do que a celha onde se recolhia a água dos banhos?

2 comentários:

Laura Lara disse...

Madalena
És uma querida, muito querida mesmo.
O mistério da telefonia também me intrigou. Talvez fosse toda aquela confusão de tamanhos que me fazia sair rapidamente do banho, assim que a minha mãe abria o ralo da banheira e eu via a água rodopiar, rodopiar e ir pelo cano abaixo e imaginava-me a escoar-me também.
Obrigada e muitos beijinhos

125_azul disse...

Ah, a telefonia! Eu não percebia como cabia a Igreja e a missa toda, com padre, orgão e pessoas a assistir no programa dominical. O rádio tinha umas válvulas atrás e eu espiava a ver se o padre tinha encolhido... agora intriga-me a minha voz atravessar o oceano e chegar a África e ao Brasil (antes acreditava que iam por fios sunterrâneos e "submarítimos", mas agora já nem fios há...o que seria da vida sem um pouco de mistério?)!
Avós, cresci sem, eu em África, eles aqui, mas tenho algumas memórias festivas que valem a pena.
Beijinhos