quarta-feira, 19 de março de 2008

"Era só o que faltava"

Ou "Era só o que mais faltava", foi a expressão utilizada pela Ministra da Educação no Parlamento, esta tarde, para rebater o argumento de que as notas dos alunos não devem contar para a avaliação dos professores.
Afinal, de que é que falamos, quando falamos de aprender e ensinar?
Há tanta coisa para falar, antes de falar das notas.
Reportando-me à minha realidade, o que me preocupa neste momento é a disciplina.
Outra das minhas preocupações, repito que me reporto à minha realidade, é o recreio. E até me atrevo a dizer que anda tudo ligado.
As palavras que mais se ouvem nos recreios são palavras obscenas, que vão além do calão mais frequente. É a violência verbal, que seria considerada apenas gratuita, se não fossem meninos e meninas que largaram as fraldas há menos de uma dúzia de anos a dizê-las, a gritá-las.
As nossas crianças estão a desaprender a brincadeira saudável da liberdade do recreio. Sei que é um lirismo, mas os recreios deviam significar a liberdade e não significam. O "recreio" é um stress: para comprar a senha do almoço, a cartolina para o trabalho de AP, para telefonar e mandar mensagens do telemóvel, para chegar à máquina das gulodices, com umas águas para disfarçar. Tudo isto entremeado de palavrão sim, palavrão sim.
A violência do recreio é um indicador a não subestimar de uma juventude que não sabe o que é que o futuro lhe reserva. Então, pelo sim pelo não, esmaga já a semente de liberdade, artilha-a de espinhos e aprende a atirar para o ar, sem querer saber quem vai apanhar com a bala e, muito menos, onde.
Estas palavras entram pelos ouvidos, atravessam a cabeça, mas é normalmente no coração que deixam marca. Mas a marca, em alguns, faz calo. E já nem dói. E isso é que está mal. É a estima individual a morrer aos poucos, vítima destas guerras que não têm educação nenhuma.
Muito menos nota.
Eu posso dar aos meus alunos os cincos todos, Senhora Ministra. Não custa nada. Mas uma grande parte do ser humano constrói-se a partir da auto-estima, que não se esgota numa nota. E, a julgar pelos recreios, a auto-estima está em crise na educação das nossas crianças. A auto-estima imprime-se na humanidade e na sensibilidade de um aluno, determinando-lhe um futuro.
Se não os educarmos para a liberdade e para o respeito, nada feito!

3 comentários:

António Chaves Ferrão disse...

Madalena
Este testemunho é aterrador. Vou "roubar".

AEnima disse...

Ando um pouco afastada da realidade das escolas, mas via como os alunos chegavam à faculdade: o contínuo desafio à autoridade, desrespeito pelo professor que tenta dar uma aula a competir com o messenger, a petulância ao reclamar de uma pergunta do exame... por aí fora. Coisas que não se via na minha geração, 10 anos mais velha apenas, ou nem isso.

Eu acho que os professores devem ser avaliados. Nas faculdades somos, nos outros empregos também, mas só quem já não se lembra de como era o liceu é que a impõe nestes moldes.

Estamos todos convosco nesta luta!

Beijinho

PS - tirei o blog do "ar" porque andava muito deprimida e não me apetecia olhar para certas coisas que tinha escrito. Mas obrigado por voltares. Espero um dia postar algo de jeito para se ler e merecer a tua volta :D

Teresa disse...

Tens toda a razão. É nos recreios que verificamos mais uma contradição das nossas escolas. Cada vez mais ficamos perplexos com o que vimos e ouvimos. Não têm respeito uns pelos outros, atroplelam a liberdade do colega, ultrajam funcionários e o pouco tempo daqueles que ainda gostariam de brincar saudavelmente é gasto em filas onde esperam e desesperam.