domingo, 15 de maio de 2011

Regresso a Poente, Francisco Seabra Cardoso

Doze de Maio. Lisboa. Fim de tarde.
Sol. Muito sol. Apesar da hora, o sol queimava ainda e os tons do dia tingiam-se de calor pelos céus afora.
“O sol frio é sadio o céu azul.
“Sol de Inverno não queima e mal aquece.”

Não. Não era um sol de Inverno. Era de Agosto apesar do calendário marcar Maio.
Chiado. (Lisboa tem muitos lugares mas o Chiado agarra a arte como nenhum outro. Será a alma de Pessoa que, por ali, vagueia? Que não seja por desassossego!) Haverá lá outro lugar na cidade (atrevo-me a alargar o conceito e dizer “no mundo”) para apresentar um poema? Não, não há, digo eu do alto da minha certeza absoluta. Pode ser uma certeza só minha, mas é absoluta!
O Poeta: Francisco Seabra Cardoso. A poesia: Regresso a Poente.
A sessão foi aberta pelo próprio poeta que se apresentou e aos que ali estavam, com ele, cúmplices do verso, da ideia e da arte que ali os levou. Chegamos ali, nós os que não tínhamos ainda conhecido o poema, inocentes e livres. Saímos dali todos também cúmplices da mesma ideia, do mesmo pensamento, do mesmo verso… O tal “eu” poético alastrou-se e deixou de ser apenas o eu poético do Francisco para passar a ser o eu poético de cada um. Chegámos até ali inocentes e livres. Saímos dali culpados da mesma culpa: a de acreditar na importância de cada instante e no poder de explodir em poesia. Foi o que aconteceu. Saímos dali impregnados de versos.
Falou-se da morte e da Vida. Já não sei precisar a quantidade que coube a uma e a Outra.
“Irreversível é nossa viagem
Que paragem não tem antes do fim”
A metáfora da Viagem. Um risco que o poeta corre ao misturar o seu conceito com o conceito do homem comum. Mas o poeta está cá para isso: para correr o risco e arrancar a poesia seja lá de que for.
A viagem! De balão! De regresso, como diz o título. E regressar é voltar para um lugar de onde se partiu, se esteve, se viveu. Será que o instante final é um instante de regresso?
O Poeta falou do Tempo e do tempo. Falou do Presente enquanto Tempo e enquanto oferta…
As palmas eclodiram menos do que a vontade de quem ali estava mais do que a assistir: a participar naquela viagem de balão…
A viagem real foi de barco, baloiçada pelos tons do poente…

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