domingo, 11 de setembro de 2011

As (minhas) Sete Maravilhas da (minha) Gastronomia

O júri que aclama esta escolha é constituído por uma remota, mas nem por isso menos viva, memória das iguarias que alimentaram a minha infância, que deram sabor a esses dias que nem sempre são tão cor-de-rosa, como se imaginam, nem tão dourados, como se recordam. O tempero que domina toda e qualquer preparação é, sem dúvida, a dedicação carinhosa.
Comecemos pelas batatas fritas que saíam do azeite borbulhante das frigideiras de ferro. As batatas eram descascadas e depois cortadas em palitos, nem finos nem grossos, com a “medida” que a minha avó tinha na mão e na intuição, para o sabor que pretendia. Eram servidas em travessas abundantes. Algumas não passavam da cozinha. A minha avó fingia que não via e nós convencíamo-nos que tínhamos iludido a sua atenção!
O Caldo Verde da Tia Miquelina! As couves podiam ser as mesmas dos outros “caldos verdes”, as batatas e as cebolas também. Este caldo verde sabia pela vida. A minha tia era pobre. Pobre de bens materiais, pobre de dinheiro. Mas suas mãos, o seu talento e o seu amor transformavam todos os pratos numa iguaria que os ricos nunca provaram. (Tenho tantas saudades suas, Tia!)
O arroz de grelos da minha avó! Era uma das especialidades também.
O arroz de grelos acompanhava sempre os pastéis de bacalhau igualmente divinais. A última refeição que fiz em casa dos meus avós, nas férias grandes de 72, foi esta! Apesar das limitações da doença que lhe “tolhia” as pernas e a impedia de permanecer em pé, junto ao fogão, a minha avó preparou-me este manjar…. Obrigada, Avó!
O caril de galinha, prato domingueiro que a minha tia Odete Pequenina preparava pela manhã, cedinho. Depois da praia, apurado pelo tempo, servia-se o caril acompanhado de arroz branco, muito branco, muito solto.
E o chacuti que a doente do meu pai mandava frequentemente em sinal de agradecimento e reconhecimento a propósito de tudo e de nada?! A mais inofensiva injecção dava direito a um belo chacuti. Nunca consegui distinguir muito bem os ingredientes, mas isso não era diminuía o prazer de apreciar um sabor diferente. Hoje, associado à memória do chacuti, estão os saris e as lantejoulas que adornavam a senhora, que trazia sempre, a rigor, um ar bondoso e humilde.
O Bife da Princesa era um bife. Normal? Talvez! Mas o molho tinha um segredo qualquer e tornava diferente o sabor do bife. Aos dezassete anos adoeci gravemente: febre tifóide. Depois de um período de febres e delírios chegou a hora da recuperação, da convalescença. Bife da Princesa duas vezes ao dia. O Fabião largava os afazeres domésticos e lá ia ele buscar um Bife à Pastelaria Princesa. (Onde andarás, Fabião?)
Ficam ainda classificados como delícias inesquecíveis: a língua de vaca estufada que a minha mãe preparava, com todo o rigor das receitas transmitidas de geração em geração; os “cocós” dos Velhos Colonos, pequenas sandes de carne assada, inimitáveis; os camarões da Nacional; a carne assada da Nacional e o Frango à Cafreal do Piri-píri.
Mais um registo da memória do passado em prol da memória do futuro!
Na foto, tripas à moda do Porto. O melhor não se vê: a companhia dos amigos. Vieira do Minho.

5 comentários:

Maria disse...

Na minha memória os pratos que ficaram são todos da minha avó.
Quando acendia o forno de ferro, fazia pão de milho com uma sardinha lá dentro. Ai aquele molho...
O coelho de cabidela, que eu ajudava a esfolar na véspera do almoço. As favas guizadas com chouriço preto.
O arroz doce da outra avó. A marmelada da tia...
Ó raio de saudade :(((

Beijo, Madalena.

AEnima disse...

ahhhhh!! Terminaste da melhor maneira :) Belas tripas!!! Ja e' dificil encontrar pelo Porto, sabes? Esta nova moda dos restaurante de "fusao" e "conceito" e o diabo a 4, estao a dar cabo dos nossos muito bons tradicionais! Parece que a comida portuguesa saiu de moda, nao entendo!

Anónimo disse...

hummmfiquei com fome a uma hora destas!
jokas
gatapina

Janine disse...

Belos sabores culinários...
Eu tenho na memória o restaurante típico da aldeia, dos meus avós. A minha avó sempre foi a cozinheira. Adorava fazer o doce da casa, e comê-lo! Sempre me deixaram adicionar um pouco de café ao doce, era uma maravilha!
E o cozido à Portuguesa, aos Domingos, com chouriço caseiro e morcela caseira! E o borrego com batata cozida... E a dobrada...era maravilhosa!!! ;)
Enfim, ainda tive o privilégio de viver esses sabores típicos Portugueses, antes da era das "vacas loucas".
Agora, delicio-me com o facto de a minha avó ainda cozinhar para nós sempre que lá vamos, mas são quase sempre uns franguinhos caseiros no churrasco com salada do quintal! ;)
Tem de haver alguma vantagem no envelhecimento, e estas lembranças só fazem parte da neta mais velha!

Um beijinho doce, querida Madalena!

Luisa Hingá disse...

Adorei "quase" as tuas sete maravilhas. Língua não, obrigada.
Bjs