domingo, 16 de outubro de 2011

A Poesia do António

Andamos sempre às voltas com os tempos das nossas vidas: o presente fica literalmente esmagado por vezes entre os pretéritos todos e os futuros que a nossa condição humana nos impõe como estímulo de vida. Se deixarmos de acreditar veementemente no futuro, o que é que nos resta?
Ontem, o pretérito revelou-se mais que perfeito! Desembrulharam-se os afectos guardados e eis que, restaurados nas novas identidades que somos hoje, estavam fresquinhos que nem alfaces. Criopreservação, presumo!
A Cândida, a quem os anos não roubaram beleza nem juventude, disse os poemas que escolheu, no "segredo" do seu encontro com a poesia do António: Ser Livre e Visão.
"Sou a pessoa errada
no mundo errado."

O silêncio pesou ainda mais quando ela disse estes dois versos, linhas de força deste poema.
Pedi-lhe ainda que lesse um terceiro, um que me tinha seduzido já que vem ao encontro das minhas preferências: as árvores. Gosto de todas.
Falar com árvores
Lembro-me! Quando era jovem,
costumava brincar no jardim
e falava com as árvores e...
esperava por uma resposta;
ficava lá junto a elas até o sol se esconder,
adormecia sobre a relva
seca e macia.
Com o passar dos tempos
as árvores envelheciam comigo;
já não falava com elas, mas
ainda as admirava.
Agora! Velho e solitário,
neste canto do universo,
penso nesses tempos da minha juventude;
quando os nossos espíritos
se desdobravam em sonhos e
quando eu pensava que as
árvores falavam.

As árvores têm envelhecido comigo. Mesmo aquelas que eu não vejo com os olhos da cara, adivinho-as com os olhos suplentes da memória e acho que têm as mesmas rugas que eu.
Percorri os poemas do António com o prazer de um passeio... Senti que todos estávamos a contribuir para um momento único na vida daquele adolescente que se tinha chegado à frente naqueles versos, com beleza e pudor. As emoções cresciam na sala. Esquecemo-nos de tudo o que se passava além "cantinho" da Livraria Barata. Só estávamos nós, no mundo naquele instante. Vi lágrimas. Vi muita ternura e adivinhei emoções fortíssimas no poeta que se sentava ao meu lado. Pedi à Cândida que lesse mais um poema, um dos muitos em que está presente a sensação física.
O traço de união foi a poesia que como nós saía de um passado já distante...
Parabéns, António Runa. Deixa seguir o teu "Último Adeus" que já não te pertence. Agora é dos leitores!

4 comentários:

Guida Palhota disse...

Olá, Madalena!
Gosto imenso de sentir a tua sensibilidade apurada... pelas letras e por quem as usa para se expressar, e também pelas árvores e pelo rio e pelo pôr do sol, mais o rio...
Gosto muito de ti.

Beijinho

Susana disse...

Como diz o nosso amigo António, a amizade e o respeito que nos une, vem do século passado!!! Vem de um tempo onde embora fossemos todos muito novos, ainda com um pé na inocência da meninice, já estávamos cheios de vontade de crescer; de voar e de nos tornarmos em tudo aquilo que poderíamos ser. Vindos do mesmo espaço (EO), apoiados por professores que mereceram e merecem a nossa maior amizade (a Madalena; a Cândida e tantos outros que embora ausentes nos marcaram) cada um de nós fez o seu percurso, cada um de nós lutou pelas suas ambições, mas mesmo após todos estes anos continuamos unidos numa amizade especial que apenas se tornou mais forte. Foi com esse sentimento de amizade presente no meu coração que partilhei com todos vós este momento que é do António, mas é também de todos os que dele gostam.
Como nos lembrou e bem a professora Cândida “Quem escreve constrói um castelo, e quem lê passa a habitá-lo”; e é por isso que deixo o meu obrigado, ao António por mais esta morada para as minhas emoções e à Madalena e à Cândida por serem quem são.

Antonio disse...

Eu já nem sei o que dizer mais. Por incrível que pareça as palavras escasseiam para descrever o momento único que tive ontem. Se soubesse qua ía ser tão maravilhoso já o tinha feito à mais tempo. As palavras ditas por estas duas senhoras tiveram o condão de me deixarem a mim sem palavras e eram por causa das minhas ditas (palavras) que alí estávamos. Por momentos pensei que o que a profa. Candida estava a recitar não podia ser meu, de todo, tal a emoção e sensibilidade que colocou na leitura. Já as suas palavras, Madalena, entraram, profundamente com uma força absolutamente imparável no meu coração. Nem sei o que dizer mais. Só posso recordar este dia por todos os anos da minha existência. Espero repetir a experiência em breve. Bjos.

Janine disse...

Um beijinho enorme, querida Madalena! E Parabéns ao António! ;)