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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Um adeus ao Escritor

A consciência da complexidade de viver leva-me a pôr de parte as amarguras e as melancolias metafísicas, diz o autor de O Tecido de Outono, Alçada Baptista. Escreve o Escritor. Decide o homem que amava a vida acima de tudo e que sabia expressar, com a naturalidade de um filósofo, a sua inquietação interior. O corpo não lhe dava sossego à alma e a alma, por sua vez, não lhe dava sossego ao corpo. Por isso dizia, ou melhor, escrevia: entre a satisfação do desejo e a culpa vai um pequeno intervalo.
Ficarei sempre grata ao Escritor ter aliviado o meu próprio sentimento de culpa,mostrando o quanto ele é incontornável no homem de um certo tempo.
O romance "Tecido de Outono" tocou-me de um modo muito diferente dos outros que li, como a Tia Suzana, Meu Amor ou Catarina Ou o Sabor da Maçã. Talvez por o ter lido numa altura em que começava já a inquietar-me a proximidade desta estação da vida.
Filipe (o homem, personagem central, narrador) casa com Matilde paar alcançar a felicidade abençoada, mas persegue a não-abençoada também com Bárbara. Até porque a felicidade é volátil e invisível a distâncias pequenas, busca-se incessantemente. Não se chega. Não se tem. É como a linha do horizonte. É sempre longe, mas está sempre lá. O casamento com Matilde acaba. E a ligação a Bárbara fortalece-se inexoravelmente, pelo que é e pelo que representa: o amor com algum pecado, com alguma culpa, sem consentimento social, interminável, sem ser definitivo ou sequer duradouro. E enquanto Bárbara dá largas ao seu instinto humanitário em Moçambique, Maria, por perto, aconchega-lhe a alma e o corpo. E ainda chega a vez de Eugénia, antes do Outono que não perdoa, tempo em que não há lugar para paixões primaveris arrebatadas. É o senso comum a impor-se. E o vazio também. E Deus ali à volta. “A certa altura da vida, parece que Deus nos fica como única alternativa para enfrentarmos a nossa solidão.”
Mas Matilde ainda lá está, para partilhar o calor de Cabo Verde e o calor que o Outono guarda do Verão. Desta vez fora “das normas e das leis”. Afinal "o Tecido de Outono" é um registo de sensualidade, um apelo à vida, uma desconstrução bela mas simples da ideia do Outono sombrio e triste.
O Inverno está aí a chegar, Escritor, mas as "folhas" que nos deixou estão verdes de esperança e não há chuva nem vento que lhes tire o sabor a vida!

domingo, 26 de outubro de 2008

Encontros de Cardoso Pires

"Sempre que o quero ver, encontro-o, muito modesto da sua pessoa, à porta da Velha Faculdade de Medicina com as vestes de Doutor. Doutor em Ciência, não de Igreja. Como tal é que a Pátria o reconheceu e como tal está exposto em estátua, frente à escola onde foi mestre dos mestres.
Campo de Santana, é lá que o temos." Lisboa Diário de Bordo

Cardoso Pires

"Ninguém como ele contribuíra para transformar o português literário, arcaico, rural e afectado, ou populista, académico e pseudo-lírico, numa língua moderna. " Vasco Pulido Valente, no Jornal Público de ontem. Texto inteiro, homenagem viva após os dez anos de saudade de Cardoso Pires.
Lawrence Ferlinghetti, meses depois do incêndio, subindo o elevador de Santa Justa que ele julgava ter sido projectado por Eiffel... Lisboa Livro de Bordo

sábado, 25 de outubro de 2008

Cardoso Pires, mais do que aniversariamente

"E aqui tens por que é que eu, nesta vista tirada do castelo de São Jorge, me sinto assim distante, quase alheado. Talvez porque daqui não te ouço, cidade. Porque não te respiro os intentos nem te cheiro. Porque não te apanho os gestos do olhar. Numa palavra, porque me falta a cumplicidade, e sem cumplicidade com a imagem, com os saberes, os gostos e os defeitos de um mundo tão privado como o teu ninguém aprende a vivê-lo. Eu, melhor ou pior, cá vou tentando. Para chegar a esse entendimento já recapitulei infâncias de bairro, já revisitei lugares; já te disse e contradisse, Lisboa, e sempre em amor sofrido." José Cardoso Pires, Lisboa Livro de Bordo E agora, José? Como diz o poeta do outro lado do mar. Fazes-nos falta, muita falta, para pensares connosco esta Lisboa e não só. Para pensares connosco a vida!
Passaram dez anos José, mas não passaram dez anos. Só o pensamento vence a morte, derrota o esquecimento.