quarta-feira, 6 de abril de 2005

Furos?


Infelizmente, temo que esteja lançada a confusão dos "furos" nos horários dos alunos!
E lamento que seja utilizado um termo da gíria da escola, cujo significado se perde para lá da escola, mesmo que se trate de altos governantes.
Um "furo" num horário de um professor ou de um aluno é um tempo sem aula.
No caso dos professores, há um determinado número de furos que a legislação, que preside à elaboração dos horários, permite. Não são contabilizados como furos os primeiros ou últimos tempos dos turnos ou do horário do professor, se este tiver diferentes horas de entrada e de saída, ao longo dos dias.
No horário dos alunos, a legislação não permite a existência de nenhum "furo", nem no caso de Religião e Moral, por ser de frequência não-obrigatória.
Este título: "Primeiro-ministro quer acabar com furos nos horários dos alunos", difundido pela Agência Lusa, anteontem, não faz sentido.
Não há furos nos horários dos alunos, como já disse. A lei não permite.
O que o Engenheiro Sócrates quis dizer é diferente: ele quer que todas as escolas se empenhem em criar uma alternativa para os alunos, na ausência de um professor.
Isso já acontece em muitas escolas.
Falo da minha experiência: na minha escola todos os professores têm de compensar os cinco minutos de diferença do tempo da aula antiga para a aula moderna. Essa compensação é feita, na quase totalidade das vezes, com acompanhamento de alunos sem aulas, em actividades desenvolvidas em projectos vários: Clube Eco- Escola, Sala de Estudo, Biblioteca, My Computer, Cantinho dos Números, Joalharia, Informática e Clube Natura.(Provavelmente esqueci-me de algum!)
Há ainda aulas de apoio pedagógico acrescido que, a meu ver, sobrecarregam os alunos sem necessidade. Mas isto já é só uma opinião pessoal. Eu, raramente, encaminho alunos para aulas de apoio. Recorro a outras estratégias de individualização, no espaço da aula curricular.
Como vêem, não é preciso sair nenhum decreto para pensar ou repensar a escola!
É preciso ter vontade, muita vontade e muitas vontades!
Como em tudo, na vida!
Trrrrrrrrriiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmm.
Furo de recreio.

7 comentários:

Tão só, um pai disse...

Olá. Não me preocupa muito a definição de "furo". Mais os "furos" que são espaços em branco nos horários. Que retiram aos "miúdos" qualquer coerência ao estudo, e à vida.

Madalena disse...

Acredito! Mas olhe que a vida não é só estudo! E eles bem gostam de pôr a escrita em dia com a vida nos tais espaços em branco! Nem sempre, nem nunca, lá diz o povo!
Obrigada pela visita!

Águas de Março disse...

Olha, no meu tempo adorávamos os furos: èramos 5 e metiamo-nos no Austin Cooper e ala para o motel continental em Oeiras a beber um cafezinho e ver o mar. Tínhamos um furo de 3 horas... esperavam o quê???
Beijinho grande, Madalena!

lique disse...

Pois, quem é que não gostava dos furos no horário? Ai, então a águas de março andou aqui pelos meus lados?? :) Muito a gente fica a saber aqui no teu blog, Madalena! Beijos

Emilia disse...

Como eu gostava de ter escrito isto Madalena! E como é verdade o que aqui dizes!
O que se passa na tua escola é o que se passa na minha e, provavelmente, em muitas outras.
Não podia estar mais de acordo relativamente às famosas APA. Fico feliz por saber que mais alguém tem a minha opinião e o declara publicamente. Costumo dizer, relativamente a estas aulas, o seguinte: "O aluno não gosta de sopa? Então vamos dar-lhe mais para aprender a gostar!!!!"
Um abraço,
Emília.

Madalena disse...

Este ano então a minha experiência com APA é um a tristeza. Mas não pode ser tudo bom e das turmas não me posso queixar!!!
Tenho o projecto My Computer e muitos alunos com necessidades são encaminhados para lá. Os miúdos não resistem à tecnologia! É dar-lhes sopa doce e com aspecto de sobremesa.
Beijinho, Emília!

António Chaves Ferrão disse...

"Não é preciso sair nenhum decreto"...

para gerir furos.
para vulgarizar termos da gíria.
para lançar mais confusão sobre o trabalho dos professores.
para sobrecarregar mais os alunos.

A aprendizagem é sempre o resultado de um esforço individual. Ao professor não pode ser exigido mais do que dar uma pistas, corrigir uma tentativa frustada, enfim auxiliar os alunos no esforço que eles empreendam por si próprios. E para isso os alunos precisam gerir o seu tempo de trabalho - e de descanso. Porventura, o que é necessário é mais furos, ou, como se faz em outros lados, dispôr de uma tarde livre de actividades a meio da semana.

Talvez nesta caminhada de repensar a Escola, o Governo seja o último a descobrir as verdadeiras leis da Pedagogia. Mas quem diz que daí vem algum mal ao Mundo?

Um leitor atento, igualmente tocado pela magia do conto de José Gomes Ferreira