sábado, 29 de agosto de 2009

A Velha Senhora

Há estrelas que nascem e brilham, apesar das nuvens e das tempestades, mesmo nos céus de que o sol se esconde.
Na Suécia, em Estocolmo, a 29 de Agosto de 1915, nasce Ingrid Bergman.
Friedel Adler, a mãe, era alemã e conhecera Justus Samuel Bergman na Suécia, durante umas férias. O casamento foi contrariado pelos pais de Friedel, que não aceitaram a ideia de casar a filha com um artista boémio. Mas Justus queria provar-lhes que estavam errados. Trabalhava em fotografia e foi na casa que habitavam, por cima da loja de fotografia , que Ingrid nasceu, a terceira filha, a única que sobreviveria.
Mas a tragédia andava por ali e Friedel morre jovem, deixando a pequena Ingrid com três anos apenas. Justus torna-se assim o único responsável pela educação da filha. Quer que ela seja cantora lírica e proporciona-lhe lições de canto. Fotografa-a, incentivando-a à exposição dos palcos. Contudo, Justus morre no princípio da adolescência de Ingrid e a tia Ellen, que a recebe e lhe acarinha o talento, também morre, dois anos mais tarde.
Menor de idade (tinha apenas treze anos), é entregue a um outro tio. Uma nova família, desta vez numerosa. Este tio não vê com os mesmos olhos a determinação de Ingrid (que na altura já era mesmo determinação), de seguir a carreira de actriz. Frequenta o Liceu Flykor e, apesar de tudo, aos dezassete anos representa, na escola, o papel principal de uma peça que ela própria escreveu e dirigiu. É aceite numa escola de teatro, The Royal Dramatic Theatre School, em Estocolmo e ao fim de um ano aparece pela primeira vez no cinema, com uma pequena participação como criada, no filme “The Count of the Monk´s Bridge”. Nesse mesmo ano, o realizador sueco Gustaf Molander, apresentava-lhe um contrato.
Intermezzo, em 1936, desperta a atenção do público e da indústria do cinema. Ingrid é uma pianista, Anita Hoffman, que mantém, durante algum tempo, uma ligação com um violinista casado. O interlúdio para Ingrid é de sucesso e felicidade: no ano seguinte casa com Petter Lindstrom e um ano depois nasce a filha Pia. O caminho para a fama estava desbravado. Hollywood já começava a reparar no talento natural desta actriz, que falava inglês, com uma pronúncia encantadoramente estrangeirada.
O mesmo filme foi produzido por Hollywood e foi assinado um contrato de sete anos. A actriz muda-se com a família para os Estados Unidos.
Apesar da sua beleza e o seu ar algo enigmático, Ingrid não pretendia que os seus papéis na tela se consumissem na imagem da mulher idealizada. Mas os sucessos de bilheteira não foram os filmes em que interpretou uma freira, uma psiquiatra ou uma alcoólica. Uma das interpretações de sucesso de Ingrid Bergman que perpassa as gerações é a de Ilsa, a romântica mulher dividida entre o amor e o casamento, em Casablanca, com Humphrey Bogart.
Um dia, Ingrid Bergman escreve uma carta ao realizador italiano neo-realista Rossellini, uma carta de admiradora, dizendo-lhe que estava disponível para qualquer papel. Rossellini reservou-lhe uma pequena participação em Sromboli (1949). Durante as filmagens aconteceu o inevitável: a admiração transformou-se em amor. O “caso” não foi bem aceite pelo público e o escândalo feriu a imagem, até aí intocável, de Ingrid Bergman. Apesar de oficialmente separado da mulher, Rossellini estava amorosamente envolvido com Ana Magnani, outra diva da época. Muitos pensaram que para Ingrid Bergman este seria apenas mais um dos seus “casos”, sendo evidente o desmoronamento do seu casamento com Lindstrom, que não lhe queria dar o divórcio..
O escândalo ultrapassou a barreira do espectáculo, tomou dimensões inimagináveis. Ingrid Berman foi humilhada pela classe política, nomeadamente pelo Senador Edward Johnson, que propôs uma medida específica para actores estrangeiros, de modo a poder expulsá-los, por atentado à moral pública.
Contudo em 1956 o escândalo e o caso de amor chegavam ao fim. Um casamento, três filhos, um rapaz e duas gémeas, Isabella e Isotta, e fracassos profissionais. Nesse mesmo ano, Hollywood reconcilia-se com a actriz e Ingrid filma Anastasia. O seu trabalho é aplaudido e recebe o seu segundo Prémio da Academia.
Os anos setenta devolveram-lhe a glória, tanta que se “esqueceu” de tratar de si e dos seu corpo. Ignorou os primeiros avisos de cancro da mama durante dois anos, porque a carreira estava acima de tudo. Depois veio a luta contra a doença. “As vítimas de cancro que não aceitam o destino, que não aprendem a conviver com ele, acabam por destruir o tempo que lhes resta.”, dizia.
E foi assim que viveu durante oito anos. O seu último trabalho foi a interpretação de Golda Meir na televisão: Uma Mulher Chamada Golda, em 1982.
No dia do seu aniversário (tal como Shakespeare), a 29 de Agosto desse mesmo ano, depois de uma pequenina festa de aniversário com os amigos mais próximos, morria Ingrid Berman, em Chelsea, em Inglaterra, em paz com a vida, com a sua vida, que segundo confessara a um amigo, tinha valido a pena viver.
Crónica publicada em 2001, no Jornal "A Gazeta do Montijo" e, posteriormente, pela Editora Ela por Ela.

4 comentários:

Graça Pereira disse...

Sempre em cima do acontecimento, no espaço e no tempo ! Incrivel! Afinal não me enganei. Um bom domingo e um bj Graça

IO disse...

Fabulosa actriz e mulher, aqui descrita por uma grande bloguista.
Grato beijo, Mad',
IO

Isabel Preto disse...

Madalena:
parece que sim...também te sentes em baixo como eu...com este recomeço! O ano anterior trouxe a quase todos nós...este desânimo insuportável!
Mal cheguei à escola e vem uma e diz:
-Olha tu tens 20 anos de Serviço...não vais candidatar-te à prova pública para tiular? Eu vou esperar até 27 de Setembro...depois se nada mudar, também não vou ser burra e ver o comboio passar...
Nem soube o que responder! Ando farta de relatórios, papéis...sei lá mais o quê!
Que faço, Lena? Tu que és mais sábia, diz-me...

CMP disse...

Querida Madalena, é com muita angústia q comento o teu post sobre o regresso...ou melhor peço desculpa se de alguma forma contribui para esse teu estado de tristeza. Desculpa! Nunca te esqueças q o q marca as pessoas são as atitudes e nada mais. E tu marcas pela disponibilidade, pela amizade e simplicidade. Isso é o mais importante. Td o resto não interessa. As coisas só têm a importância q lhes damos. Não dês importância ao q não serve para seres ainda melhor como pessoa e como formiguinha!
Miss you!