terça-feira, 12 de julho de 2011

E se casássemos...

E se casássemos?!
Foi assim, com este romantismo todo, que o Jorge formulou aquele pedido que aconchega os nossos sonhos de menina. Nem anel, nem postura ajoelhada, nem declaração de amor reiterado... Nada! E se casássemos?! Como quem diz que em vez de andarmos por aí aos caídos, um para cada lado, mais vale andarmos aos caídos para o mesmo lado!
E não é que eu aproveitei logo a ideia e resolvi pôr em prática o mais importante? Arranjar uma casa!
Pois... é que eu queria mesmo casar ( O meu lado Susaninha porque nem todas as meninas de então se podem gabar de ter um lado Mafaldinha!) e tinha de aproveitar aquela distracção, não fosse ele arrepender-se e não tornar a dizer nada parecido.
É verdade que eu sonhava com a declaração de amor. É verdade que eu sonhava com o verdadeiro sonho. Certo é que já tinha recebido um manjerico no Santo António! Sempre é um sinal. Uma evidência, como se diz agora!
Aí fomos nós, cinco minutos depois à procura da casa. Não foi a primeira porque os dois contos e quinhentos, doze euros e meio na moeda da Troika, era demais, apurados que foram, em dez minutos, os recursos em escudos. Mas a segunda já cabia no Orçamento Geral do nosso estado de enamoramento, mais propriamente do meu enamoramento: dois contos trezentos e cinquenta.
Era doze de Julho e estava calor. Ainda bem que acertámos à segunda. Era um terceiro andar, na Rua José Malhoa em Odivelas. Três assoalhadas, porque na época ainda não havia T2.
Urgia oficializar mais o noivado, para estancar qualquer arrependimento, daqueles que se lêem nos romances. Uma carta para o meu pai. Uma carta para a minha mãe.
Querido papá... Querida mamã... vou casar. O meu namorado chama-se Jorge e é estudante de medicina. É de Angola e mais pormenores daqueles que os pais gostam de saber. Sobretudo as mães. Prometo que não vou deixar de estudar, etc, etc...
Ainda nesse dia, comunicámos aos pais do Jorge. A mesma promessa: não vamos deixar de estudar. O maior medo de um lado e do outro era o mesmo.
Na inocência dos meus vinte anos mais um, achava que alguém podia demolir o meu sonho e proibir-nos de casar. (Só hoje é que eu percebo que ninguém podia e ninguém pode levar-nos a fazer aquilo que não queremos!) Preparava-me para usar o direito da minha maioridade (vinte e um anos) para me casar sem autorização. Mas não foi preciso.
No dia seguinte, lá fomos ao Banco que tratava do aluguer. O terceiro andar já estava ocupado. Mas o segundo estava livre e até tinha umas paredes muito lindas, dizia a Dona Piedade que fazia as honras das apresentações e visitas aos andares. Ficámos com o segundo. Foi só uma questão de cobrir, com uma tinta barata mas eficaz, as flores desenhadas a rolo…
As certidões chegaram à velocidade do meu desejo e um mês e oito dias depois, lá casámos e fomos finalmente morar para as nossas três assoalhadas de "sonho".
Aí vivemos as alegrias maiores das nossas vidas. Aí começámos tudo!

11 comentários:

Maria disse...

Xi... que giro!
Coitado do Jorge, ainda podia magoar o joelhito... ainda bem que foi 'sui generis'...

Beijos.
(até me ia dando 'uma coisa má' quando traduziste os dois contos e quinhentos - dinheiro, na época - para 12,50 euros - menos de 25 tostões, hoje...)

Isabel Preto disse...

É tão bom, ter momentos destes para relembrar. Tens já uma vida inteira ao lado do Jorge, não é toda a gente! Afinal, as evidências desse amor, estão à vista e nem foi preciso ajoelhar.
Beijos e parabéns.

Luisa Hingá disse...

Votos que sejam muito felizes.
Beijos

Nela disse...

Entre a Susaninha e a Mafaldinha há a vida real. E prática, como o Jorge demonstrou saber! Hehehehe

Olha, se tivesse sido mais romântico, não tinhas nada de pitoresco para contar agora...

Jorge disse...

A memória já vai pregando partidas às pessoas e a Madalena não escapa:-))). A renda que fomos pagar foi de 2300$00 (11,5€)! Nessa altura eu enchia o depósito de gasolina do Mini com 120$00 (!,10€)!!1
Foram tempos engraçados e saudosos porque também vividos intensamente. Até no chão começámos a dormir pois a mobília de quarto, dos Móveis Baía (não havia dinheiro para mais altos voos) demorou tempo a chegar!
Beijinhos, Madalena.

Tonixa La Rua disse...

deixa lá miss tortas, q eu tb tive um pedido assim... romântico, em pleno restaurante chinês, na Rua de Belém, antes do crepe... mas o meu foi mais" e q tal juntarmos os trapinhos?"... coitado do Carlos, qse q levou com um pedaço de crepe no meio da testa, tal foi o engasgo...

Gatapininha disse...

É uma história linda, de quem sabia bem o que queria:)

jokas

Geninha disse...

Madalena adorei ler a vossa história de amor, que ainda hoje se sente a chama de um amor fantástico bem acesa.
Desejo-te continuação de muitos e muitos anos de continua felicidade.

Um grande beijinho

Guida Palhota disse...

Que delícia de texto, Madalena! Que maneira prática e verdadeira de ser! Quantas vezes parece que se concretiza o sonho e depressa se percebe o engano!...
Passaram quase 30 anos e sente-se bem a vossa felicidade. Há já uma vida grande construída pelo vosso esforço, pelo vosso amor, pelo vosso prazer.
Parabéns pelo vosso percurso!

Curiosidade: Amanhã é o dia em que eu e o Pedro completamos 17 anos da nossa viagem conjunta, sempre a construir. E estamos radiantes.

Mil beijos

AEnima disse...

Que historia bonita Madalena. Verdadeiramente bonita. Eu ha muito passei os 21, estou mais precisamente nos 34, e nunca ate hoje senti essa tua certeza absoluta de querer casar com aquela pessoa.

Beijinhos, um abraco

Teresa disse...

Que texto maravilhoso...
Um beijo grande
T.