quinta-feira, 24 de julho de 2014

No teu dia, Cidade!

À Sra Dona Lourenço Marques,
Querida Lourenço Marques, não sei onde fui buscar esta ideia de seres mulher com nome de homem…  Hoje e agora, serás.
A ideia nasceu após uma pergunta formulada à Música Amélia Muge, sobre a mudança do teu nome, se essa mudança traz alguma alteração aos laços estabelecidos contigo anteriormente. Nem ouvi mais nada. A pergunta entrou pelo meu ouvido directamente à minha memória e daí a ideia de te chamar senhora, de te considerar mulher.
És a minha mãe nova e bonita! És uma qualquer das minhas tias, todas elas mulheres com um capital de amor e de afecto sem limites nem plafonds. Crédito total. És qualquer das minhas amigas que cresceram comigo e continuam a acompanhar-me nas caminhadas ou mesmo nas corridas da vida. És a minha raiz, o meu ventre materno, a minha sensação de paraíso perdido, minha primeira infância intocável de memórias que não guardo senão em fotos e que me devolvem uma inconsciência do mal, do perigo. Espaço e tempo  plenos  de natureza luxuriante e sugestão de aventuras mil.
A minha memória primeira, catalogo-a num tamanho muito xxs, entre os dois e os três anos: uma mudança de colo, da minha mãe para a minha tia, que iria ser minha madrinha. Um carro parado, junto à Catedral.
És a minha avó Madalena, imensa como os seus olhos verdes, estes sim  verdes de esperança. Também mulher de amores incondicionais e com uma dedicação à família que a transformava na verdadeira matriarca, com poder conquistado e aumentado ao longo dos anos.
As minhas priminhas, meninas felizes que corriam pelo nosso jardim do Éden privativo, o quintal da Avó,  onde os canteiros das alfaces e dos melões, melancias, couves, batatas, árvores de todos os frutos, uns tanques imensos onde todos os dias as roupas brancas eram lavadas e estendidas em bases de ferro e arame a que chamávamos “coradoros” pelas duas mulheres da casa. Junto ao tanque…  a romãzeira dava romãs, nem sei em que altura do ano, pois o conceito de “ fruta da época”, no meu passado remoto, não existe.

Hoje é e será sempre o teu dia, Minha Cidade, a tal que eu sei que traí….
Fotografia do meu cunhado, Luís Boléo|

domingo, 20 de julho de 2014

Memórias

Tenho memórias muito vivas da minha infância e até dos desejos e sonhos de menina.
Algumas das "certezas" ainda hoje me faz em sorrir ...
Antes dos seis anos, acreditava  que quando atingisse essa idade maior, seria auto-suficiente. 
Podia até casar e começar a vida de mãe de família que era a minha ambição, tal como a Susaninha, amiga da Mafalda do Quino, que muito recentemente celebrou 82 anos. Sofri uma enorme desilusão quando, chegado o dia, não aconteceu nada. Não cresci magicamente os centímetros todos que me faltavam para ser pelo menos da altura da minha mãe.
Passados uns meses, levaram-me para uma escola  Que experiência horrível! Que rotina desgastante. E ainda por cima havia os castigos e eu, na primeira classe, apanhei muitos. A professora, uma senhora muito respeitada na cidade de Lourenço Marques era muito amiga do meu pai, mas a mim fez-me sofrer. Devo confessar que hoje lhe dou valor. Ensinou-me o valor do castigo...
Eu até achava que já sabia ler! Ela não acreditou em mim. Sofri uma humilhação tremenda.
Aprendi a apanhar os pedaços estilhaçados do sonho! Aprendi que a vida tem um curso e não há volta a dar.
 Agora queria continuar a dar a mão aos meus filhos, para os salvar de todos os perigos.
 Agora tenho netos e fico feliz por ser esta sensação tão diferente da responsabilidade dos filhos. São a doce sobremesa e prendem-me à vida pelo lado da brincadeira e do amor sem mais nada. Só amor.
 As crianças são os únicos seres que não descriminam os mais velhos. Lambuzam-nos de beijos como se a nossa pele fosse lisinha como a deles. Fazem-nos penteados como se os nossos cabelos fossem os das bonecas.
Hoje a Joana queria pôr-me a chucha no Skipe. Devia querer consolar-me já que, como ela diz : "A  Madalena ti dói-dói..."

domingo, 13 de julho de 2014

Those were the days .....

Claro que isto é saudade!
Ao longo da vida tenho balançado sempre entre este psicologicamente correcto de ter ou não ter saudade, ou melhor, dizer que se tem ou não tem saudade. Às vezes, até parece que "parece mal" falar de saudade. Porque é falar de passado que é algo que não se muda e não vale a pena "chover no molhado", para citar o nosso nobre povo.
Como em tudo, há quem ache que sim, quem ache que não e quem esteja sempre pronto a criticar a saudade alheia. Outra recolha da sabedoria popular; o velho, o rapaz e o burro.
Eu tenho saudade, sim, de tudo o que vivi. Mesmo que a minha infância não tenha sido muito  cor-de-rosa como gostava de tivesse sido, até o baloiço pendurado no quintal da minha avó me traz um tempo em que sonhava, coisa que já vai sendo difícil hoje. (Esse baloiço ainda me embala desilusões.) Tinha futuro, achava eu. E tinha mesmo! Este quintal era e será sempre o meu paradise lost porque ali vivi todos os afectos do mundo. E havia a certeza que todas as rejeições, entre os que ali moravam ou lá iam de visita, acabavam bem. Dei uma mordidela à minha prima Madalena para lhe mostrar que tinha as minhas armas, apesar de ser uma lingrinhas indefesa..... Desculpa, priminha! Levei o tau-tau da ordem e nunca mais se falou nem se mordeu o assunto.
Tenho saudades da minha adolescência, cheia de diários e segredos, bilhetinhos e namoros quase. E dos bailes dos Velhos Colonos, onde ninguém me vinha buscar para dançar e eu até agradecia porque era uma das minhas incompetências, entre outras....
Tenho saudades do tempo desta foto, da intensidade do namoro, de pensar que tinha de me conformar com a rivalidade do futebol, sobretudo no inverno,  e das voltas em bicicletas, prato forte do verão....
Apetece-me viajar no tempo e dizer à Madalena de então: Tens de ser forte!, que  é o que me dizem agora, vezes sem conta, como se houvesse alternativa, qualquer que seja o "campo" da vida a ser preenchido....