quarta-feira, 26 de março de 2008

Ainda a questão do respeito

Afinal, continua a falar-se demais na professora, como se não fosse alguém com nome e rosto. E eu continuo a sentir que o respeito desapareceu dos códigos de conduta de muitos e muito dignos representantes da nossa dita classe média, intelectualizada, pensante e portadora de valores, com obrigação de os transmitir aos outros, mais novos ou não.
A Isabel deixou este comentário. Peço autorização para reproduzir aqui: (...) considero eticamente discutível a divulgação (ainda por cima até à exaustão) do vídeo pela comunicação social. A professora não é uma mera figura simbólica, tem rosto, é uma pessoa. Se lhe pediram autorização e a deu, tudo bem. Mas duvido, e, então, como se vai agora ensinar os jovens que não se deve (creio até que é proibido por lei) publicar filmes de espaços não públicos sem autorização dos filmados? Hoje são aulas, amanhã vai um garoto de telemóvel a casa de um amigo, filma uma cena familiar a que assiste e publica no YouTube ou noutro sítio qualquer, e se depois argumenta que a comunicação social também já fez divulgações dessas para todo o país, que lhes respondem os educadores?
(O caso podia ter sido descrito; usar o vídeo acho discutível. E a primeira condição para que os putos reconheçam autoridade nos adultos e os respeitem é que estes dêem o exemplo nomeadamente de respeito)

As más surpresas sobre o tratamento deste assunto vão surgindo um pouco por todo o lado. Eu já vivi, dentro da escola e dentro da sala de aula, situações muito difíceis que nunca irei contar em espaços públicos. Tenho, por isso, uma noção do respeito e da solidariedade que faz falta a esta professora e a todos nós professores.
E não pensemos que as responsabilidades se confinam às famílias, nomeadamente aos pais. Nós também lidamos com os pais e não os temos como inimigos, como adversários. Eles também se debatem com angústias e, muitas vezes, com um imenso sentimento de vergonha, que só os mais fortes conseguem ultrapassar, sem magoar ninguém pelo caminho.
É a sociedade em geral que está a não-educar para o respeito. E a abusiva transmissão do vídeo agudiza a dor da humilhação. Na pessoa desta professora, há uma humilhação colectiva.
Felizmente, posso ir à janela e apanhar a nesga de mar que me coube em sorte e, se apurar a atenção para os sons que me chegam, consigo ouvir o vento e as gaivotas.

1 comentário:

Teresa disse...

É verdade Madalena. Já nem sei o que é pior, se a atitude dos alunos em causa, se a vergonha que estes pais sentirão, se a divulgação abusiva do vídeo, passado até à exaustão. O aluno não devia ter filmado e muito menos colocado a público o que se passou na aula, mas a nossa comunicação social mostra o estado a que chegamos. É aviltante para todos nós...educadores.
A situação criada na aula e a reacção que aluna e professora tiveram não me parecem tão lineares. Algo se deve ter passado de grave, mas abstenho-me de comentários porque não sei o que se passou e quem não sabe não fala.