domingo, 25 de fevereiro de 2007

Zeca Afonso

Para além das canções, para além das palavras livres, a própria liberdade é um legado seu.
Eu, devo-lhe a esperança em homens livres desde sempre, desde um tempo em que o meu pensamento era educado pelo exemplo e o Zeca Afonso era um desses educadores de pensamento. Era professor e a sua coragem de dizer era a coragem dos homens livres.
O Alentejo também me foi ensinado pelo pensamento. Ontem consegui apanhá-lo assim, verde e imenso, como eu penso e vejo sempre, nestas minhas viagens para o "A Sul".
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Leio, na Visão desta semana, as origens da sua Grândola Vila Morena.
Leio, também na Visão, a sua geografia algarvia, onde também foi professor, onde também amou, não só o mar, não só a mulher, também os seus alunos, também a sua condição de professor.
Talvez seja este professor quem criou em mim a ideia de que ensinar é muito mais do que expor conteúdos. Pode ser cantar! Pode ser pensar! Pode ser acreditar numa terra onde reine a Liberdade.
Leio, na Visão ainda, e transcrevo para provar que não estou com visões, nem alucinada por outra visão, a do mar, ali ao fundo...
"Queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes o espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais." Um amigo disse.
Obrigada, Professor.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Mensagem dos Porquinhos

Os Porquinhos mandam dizer, especialmente à Ana, que não sairão de Chora Que Logo Bebes, onde encontraram amigos e, sobretudo, encontraram o seu lugar.
É preciso recordar que há muito que eles estavam a viver numa fotografia, onde quase não encontravam ninguém. Entretinham-se a contar histórias, a recordar episódios da enfermaria de Nampula, onde nasceram, nas paredes da Pediatria.
Ontem estavam tristes, por causa da data: há já dois anos que o "Amigo Maior" os deixou. Explicaram-me que não se sentiam infelizes por terem ficado confiados à minha guarda, mas que a saudade também lhes dói.
E para acalmar essa saudade, apareceram ontem alguns amigos: o Dumbo, o Bambi, o Tambor, que moravam também em Nampula, em paredes vizinhas.
Foi bom terem estado juntos nesse dia especial.
Hoje regressaram, pois a viagem até aos "postos" onde guardam as respectivas memórias ainda é compridita. Logo, mais ao fim do dia, devem telefonar a dizer que chegaram bem. Os Porquinhos pediram para deixarem a foto. Pedido acedido sem delongas!
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terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

(...)

GALÉ
Algarve, 18 de Fevereiro

Nemésio, a memória viva

Morrer ou não morrer, eis a questão, parafraseando um poeta máximo da Língua Inglesa, a propósito dos poetas máximos das nossas línguas que numa palavra se dizem "lusofonia".
É o que me ocorre dizer no dia em que passam vinte e oito anos sobre o dia em que morreu um poeta ilhéu, de "território pátrio circunscrito" como ele próprio diz, mas que se inscreveu, pela obra em géneros vários, em espaços outros para além dessa ilha onde nasceu. A minha memória feita de células que um dia vão desaparecer recorda o dia em que o viu sair da Faculdade de Letras de Lisboa, onde tinha acabado de dar a sua última lição. Mentira! A última lição não a deu nunca, porque buscando os seus escritos, as suas palavras ditas, encontraremos sempre uma nova lição que, com toda a garantia, não será a última. Ele também o disse, não sei se com mágoa e ironia ou por razão diversa, isto é, a de um outro conhecimento inerente aos seres humanos de pura estirpe literária.
"Dou a minha última lição de professor na efectividade e em exercício, segundo a lei. Claro que a lei só tira o exercício ao funcionário: o homem exerce enquanto vive."
Enquanto não morre, poeta, atrevo-me a acrescentar! E a morte de Vitorino Nemésio não será nunca anunciada.
Ouça-mo-lo, graças ao registo aqui deixado pelo Instituto Camões.
Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.

Leia-se o seu Testamento.
Eu deixo-lhe um mar, em sua memória, terreno arável e fértil para qualquer poesia.Imorredoiro, como o poeta!
mares por navegares

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Provérbio

É Carnaval, ninguém leva a mal!
Os ministros também têm direito a brincar o seu carnaval, com as pistolas de água que guardaram de pequeninos, com uns sacos de farinha e ovos, de preferência já fora da validade, porque com a fome nem o Carnaval se brinca, com umas máscaras de Zorro, Superhomem, Spiderman, magos e fadas, ou bruxas,... etc, etc!
O Ministro Manuel Pinho adora dizer piadas. E são sempre piadas novas. Esta é de hoje, segunda-feira gorda, em dieta forçada:
Recebemos as empresas espanholas de braços abertos
De braços abertos para trabalhar, de bolsas abertas para gastar, de cabeças abertas para não pensar, de coração aberto para mudar o chip de alguns ressentimentozitos que vêm do tempo da Maria Cachucha (??), do tempo da Padeira Brites, do tempo de um dos maiores portugueses, o Afonso. Enfim, Sr. Ministro.
Divirta-se agora, enquanto é Carnaval. Depois começa a Quaresma e esse tempo já não dá para essas brincadeiras tão divertidas.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Era uma vez...

... o sonho de chegar depressa, ao outro lado do mundo.
Era uma vez o sonho de voar!
Se os mínimos seres que são as aves estão além e logo, logo, mais além ainda, no mesmo minuto, o homem, esse ser superiormente inteligente, não conseguirá imitá-las?
Talvez o segredo esteja na existência das asas, uma espécie de braços, sem mãos e cobertos de penas. Braços mais compridos do que pernas.
Os homens tentaram asas, como fez Dédalo para si e para o seu filho Ícaro, para fugir do labirinto, invenção sua para guardar o meio-homem meio-touro, Minotauro.
O Velho do Restelo registou para sempre, no poema maior, a sua reprovação:
Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitecto co'o filho, dando
Um nome ao mar, e o outro fama ao rio.

Pobre pai que não contou com a inexperiente ambição do filho que tanto se aproximou do sol, que as asas se derreteram e nenhuma divindade lhe valeu, pagando caro o erro da juventude: ir para além do além possível.
O ar, o mar, a terra! Para vencer o espaço é preciso conhecê-los bem, estudá-los muito!
E o sonho cumpre-se!
Gago Coutinho, português, nasceu na Madragoa, outra maneira de dizer Lisboa, a 17 de Fevereiro de 1869 e morreu em Lisboa, noventa anos e um dia depois e depois de ter dado ao mundo muito do seu saber e todos os seus estudos, que hoje nos permitem mágicas deambulações entre fusos horários, gentes e civilizações tão distantes.
O seu nome ficou indelevelmente, fraternalmente ligado ao de Sacadura Cabral, seu companheiro de mares e ares, seu irmão de sonho.
E porque os sonhos não têm preço sujeito às variações da bolsa, foi nos "vinte escudos" que se fixou a homenagem a Gago Coutinho. O autor conseguiu imprimir na nota de vinte o olhar de Gago Coutinho em direcção ao futuro!

Estas linhas são para a Luh e todos sabemos porquê!
Em directo, da terra das amendoeiras em flor...

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Post atrasado: O amor é...


Kim Casali criou o famoso par amoroso nos anos sessenta e as suas "explicações" sobre o amor passaram a fazer parte de um ideário universal, a partir do momento em que começaram a ser publicadas uns anos depois.
Originariamente os desenhos e as respectivas legendas eram bilhetes amorosos para o noivo, Roberto.
Kim morreu em Junho de 1997, mas o filho Stefano mantém o legado da mãe e Love is... continua.
O amor é mesmo a melhor solução, por maior que seja o problema!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Mirandela

Mirandela é uma cidade bonita. Surpreendeu-me a beleza clara, já que tenho das terras do norte uma ideia errada de que são todas escuras, taciturnas e tristes.
Nada disso! Mirandela pareceu-me uma cidade moderna perfeitamente encaixada numa riqueza patrimonial de pedra e rio, com muitas flores e muitas alheiras penduradas nas montras. E tudo fica bem com tudo, pareceu-me!
Ontem, Mirandela esteve nas páginas dos jornais pelas razões tristes das tragédias que todos os dias, de um modo ou outro, nos encardem a alegria de viver, de passear, de ver novos lugares, de sermos surpreendidos dentro do nosso próprio país...
"Pela primeira vez na história de 120 anos da mais bela e dramática linha ferroviária do país, morreram pessoas."
Encontrei hoje, nesta crónica do Público, o pensamento que eu sentia, mas que não conseguia alinhavar em palavras, talvez pelo embotamento que estas tragédias provocam sempre em mim. Li nestas linhas de Manuel Carvalho a minha incompreensão, a minha tristeza e o meu “choque”, porque se trata de vidas que são assim cortadas ao meio, ou nem isso. Muitas ou poucas, são vidas de pessoas tão iguais àquelas que eu amo e estimo. É a certeza da insegurança que pressentimos em quase todos os aspectos da nossa existência.
Ninguém se lembrara de anunciar, a tempo e horas, que a Linha do Tua está doente, muito doente. O jornalista até diz que está mesmo morta.
Ninguém se lembrou de ter cuidado, para evitar mais uma tragédia.
mirandela
Estas flores estavam em Mirandela, há menos de um ano. Voltarão como voltam as flores. Mas as vidas humanas estão irremediavelmente perdidas.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Enfim, a Liberdade!

"No dia da minha libertação, acordei, após algumas horas de sono, às 4.30 da manhã. O dia 11 de Fevereiro foi um dia sem nuvens, de fim de Verão, típico da Cidade do Cabo.
Fiz uma versão abreviada dos meus exercícios de ginástica do costume, lavei-me e tomei o pequeno almoço. Telefonei depois a várias pessoas do ANC e da UDE, na Cidade do Cabo, para virem a minha casa a fim de nos prepararmos para a minha libertação e trabalharmos o meu discurso. O médico da prisão apareceu para me fazer um breve exame. Não me preocupava com a minha libertação iminente, mas com o muito que tinha de fazer antes dessa altura. Como acontece tantas vezes na vida, a importância de um determinado momento perde-se na confusão de milhares de pormenores."
Nelson Mandela, Autobiografia (texto e imagem)
Legenda da imagem-"Em casa, em Orlando"

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Os tempos- Brecht, poesia

Dificuldade de governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

Os tempos

Todos nós falamos, nem que seja apenas "às vezes", no "nosso tempo".
Para mim, o meu tempo não é este, mas também não sei se isto é verdade para os outros.
(Isto é: não sei se os outros da minha idade sentem que este não é o seu tempo. O facto de eu sentir o que sinto não transforma este "sentir o que sinto" em verdade universal. Muitos certamente sentirão de modo totalmente diferente. Ainda bem! Não é assim tão gratificante pensar que o nosso tempo já passou...)
Não tem a ver com a idade cronológica. Tem sobretudo a ver com o tempo em que de qualquer maneira realizamos um bocadinho daquele desejo universal de mudar o mundo. Basta que nos mudemos a nós próprios, que consigamos semear dentro dos nossos actos a vontade, a convicção, a certeza...
Mas tudo na vida é transitório, efémero, como a própria vida, quando tida no seu valor individual.
No meu tempo, havia uma sede imensa de chegar ao maior conhecimento possível das realidades que os livros continham. Lia-se muito, para que tal acontecesse. Era mesmo necessário ler-se muito e falar-se também sobre o que se lia. O conhecimento difundia-se assim. O conhecimanto consolidava-se assim.
Tinha amigos que liam Brecht e sabiam tudo sobre Brecht. Eram intelectuais. Eu também queria ser intelectual, mas a cabeça puxava-me muito para o sonho. Eu era quase uma espécie de Susaninha, contestatária por contágio das Mafaldinhas que me rodeavam e que eu admirava incondicionalmente. (lol)
Esse meu tempo passou, mas a memória dele ficou. Felizmente!
Assim, ao deparar com a data de nascimento de Brecht (10 de Fevereiro de 1898) vem-me à pele o arrepio do sonho de mudar o mundo.
O sonho de tornar o mundo mais justo.
Mas ele continua a rodar mais para o lado da injustiça. Cada vez mais!!!
Brecht ficou com o seu nome mais ligado ao teatro, mas foi também na poesia que ele reflectiu a preocupação pela "emancipação social da humanidade".

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Efeito "sinais"

Um risco na paisagem! Assim chamou hoje Fernando Alves à sua crónica radiofónica.
Fiquei presa à metáfora e a tudo o que esse risco "tinha para dizer", pelas palavras arrumadas de maneira quase musical, como é hábito aliás. O assunto foi mesmo música para os meus ouvidos: um projecto pioneiro que se destina ao ensino das coisas complicadas às crianças. Coisas complicadas como a Física e a Matemática. Projecto que "cresce" com as crianças desde o pré-primário ao décimo-segundo ano. E tudo através de uma outra ciência que é tão ciência como arte, digo eu, a Arqueologia.
Lembro-me de ter estudado que uma recta é a mais curta linha que une dois pontos. Para mim, porque o apego ao rigor científico foi encolhendo também com o passar dos anos, esta podia ser a definição de risco na paisagem. O que é preciso é unir. O que é preciso é que se una de vez o desconhecimento ao conhecimento, ultrapassando paisagens, que é como quem diz, espaços. Ou que se unam os conhecimentos que perpassam os tempos, que é como quem diz passados, que é como quem diz a História.
Aprender é sempre uma palavra tão linda! Quase tão linda como a crónica do Fernando Alves!
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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Poetas das minhas Terras

" Um homem nunca chora "

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem!

José Craveirinha!
(Claro que os homens choram, poeta! Mas só quando são mesmo já homens de verdade, homens feitos, como diz o povo. É preciso lá chegar. É preciso passar pelas adolescências e pelas infâncias, tempos de sonho que amortecem as dores com promessas de futuros risonhos. Depois o ferro, moldado pela vida, torna-se carne e osso e lágrimas.)
O poeta morreu a 5 de Fevereiro de 2003.
Imagem daqui

domingo, 4 de fevereiro de 2007

É tempo de folhas caídas

Não sendo eu muito dada ao romantismo que não seja o do dia a dia, Almeida Garret não me despertou um interesse maior, nem enquanto aluna, nem depois como professora de Português, uma das experiências mais "românticas" que tive na vida.
Apaixonei-me pela Língua Portuguesa, pelos Clássicos, pelos antigos e pelos modernos, mas Garrett não conseguiu criar em mim o gosto pela obra, talvez pela morbidez com que os Românticos, no sentido literário do termo traziam aos versos ou às prosas.
Devo, no entanto, com toda a sinceridade afirmar que gostei das peças de Teatro, uma delas "Falar Verdade a Mentir" faz (penso que faz) ainda parte do programa do 3º Ciclo.
Mas Garrett, quer eu goste muito, pouco ou nada, é uma figura incontornável da cultura portuguesa. A ele se deve a edificação do Teatro Nacional D. Maria II e a criação do Conservatório de Arte Dramática.
Da sua actividade política pouco sei, mas não foi fácil viver em tempos de lutas entre liberais e absolutistas e as suas opções valeram-lhe exílios e outros dissabores.
João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto, a 4 de Fevereiro de 1799.
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Das Folhas Caídas...
Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n 'alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

(...)

Obrigada, Espumante!
Um amigo é aquele que nos chama à razão.
Vou tratar do Chora porque pelo menos há uma pessoa que quer que isso aconteça!
mares e ceus
Obrigada pelas acácias e pelo mar da Polana! Obrigada pela explicação do azul turvo. O azul límpido era no Bilene. Obrigada pelas esplanadas em que a minha saudade ainda espera pela coca-cola com torradas. Obrigada, mesmo!

sábado, 3 de fevereiro de 2007

A Biografia do Cabo

Começou por se chamar Adamastor e por morar num mar revolto.
Guardião de um encontro de oceanos, cumpriu com rigor e determinação o que mais tarde se revelou ser determinação alheia à vontade própria, mas sim desígnio dos deuses.
Tinha a fisionomia dos monstros e alimentava-se de medos, diziam. A esperança, tão contrária ao medo, inspirou um novo baptismo.
O poeta fala de uma "figura" de "disforme e grandíssima estatura", de "um rosto carregado, a barba esquálida, os olhos encovados", de uma "postura medonha e má", da "cor terrena e pálida", de cabelos crespos, cheios de terra, "a boca negra e os dentes amarelos".
Quem quis saber mais sobre esta figura que, em tamanho, equivalia ao Colosso de Rodes, interpelou-o com os tremores da coragem de quem sabe que a História espera uma resposta e que a sua missão é abrir o caminho a essa resposta: "Quem és tu?"
A resposta não tardou e começava assim: "Eu sou aquele oculto e grande Cabo..."
E prosseguiu com as suas origens divinas, seus antepassados deuses: filho da Terra, quis o destino que se apaixonasse por uma ninfa, ou seja, por uma Princesa das Águas. Vítima de uma miragem, nem a condição divina lhe permitiu escapar à infelicidade que o desgosto de amor causa nos amantes.
Atraído pela visão enganadora, petrificou em medo e em castigo, rodeado do elemento amado.
Depois de contar aos marinheiros portugueses a sua triste história, rompeu num "medonho choro" e desfez-se em "nuvem negra".
1488, 3 de Fevereiro - Bartolomeu Dias dobra o Cabo da Boa Esperança
adamastor
Para ti, Pedro, na esperança de que, estejas onde estiveres, saibas que os tuas marcas continuam vivas. Este teu Adamastor não morrerá nunca e a doce recordação de ti também não!

Todos os Animais são iguais!!!!

Não há adaptação mais fiel à ideia de Orwell do que a dos dias que correm!
Refiro-me naturalmente ao Triunfo dos Porcos, tradução feliz de "Animal Farm".
Ontem, tive a pouca sorte de ficar mais tempo do que é normal numa bicha de trânsito, das muitas que há em Lisboa, mesmo sem ser em hora de ponta.
(Sempre por causa das obras que nos hão dar uma Lisboa perfeita quando o planeta já não tiver ponta por onde se lhe pegue, quanto mais Lisboa ter hora de ponta!)
Tive a pouca sorte, dizia, porque tive de ouvir, repetidamente, os noticiários das várias estações.
(O leitor de CDs está avariado! Melhor: tem manias e, de vez em quando, não toca nem cospe o CD!)
E sempre a mesma voz, gritada e ensaiada, do PM a explicar o que disse o Ministro da Economia na China e que os burros, que somos nós, não conseguem perceber.
O Dr Pinho referia-se a trabalhadores de "ponta", muitíssimo qualificados e diferenciados e que trabalham por menos dinheiro do que os "congéneres" dos países civilizados da UE.
Quanto mais explica, mais se enterra. Pior a emenda que o soneto ou, como se diz em português gastronómico, "pior a amêndoa que o sorvete"!
"Como todos os discursos de Napoleão (o PM lá do sítio) este foi curto e objectivo.
Também ele - disse - estava contente por ter terminado o período de mal-entendidos. Durante algum tempo haviam circulado boatos - inventados por maligno inimigo - de que havia qualquer coisa de subversivo ou mesmo de revolucionário no seu proceder e no dos seus colegas. Tinha-lhes sido atribuída a tentativa de provocar a rebelião entre os animais das quintas vizinhas. Nada poderia estar mais longe da verdade! Seu único desejo, agora e no passado, era o de viver em paz e manter relações normais de negócios com os vizinhos. A quinta que ele tinha a honra de administrar, acrescentou, era uma empresa cooperativa.
(...)
Não havia dúvidas agora sobre o que estava acontecendo às caras dos porcos. Os que se encontravam lá fora olhavam do porco para o homem e do homem para o porco e novamente do porco para o homem e já era impossível distinguir uns dos outros."

Os sete mandamentos tinham sido reduzidos a um único que dizia que todos os animais são iguais, tal como dizia o mandamento original, mas acrescentava, mas alguns são mais iguais do que outros.
Benjamim, o burro da história, por muito burro que fosse tinha já uma experiência de vida muito longa e já tinha percebido tudo. Nem os seus "primos", os belos cavalos inteligentes, de quem os porcos se tinham utilizado para difundir as teorias primeiras de igualdade e justiça, nem esses tinham sido poupados à voraz ambição do porco, que então, já se vestia à homem e já usava chicote!!!
burro
Esclarecimento: Os porquinhos do Chora estão exilados nesta Terra Faz De Conta, por terem sido expulsos de Animal Farm. Foram aqui acolhidos com orgulho e aqui ficarão, para mostrar também que nem todos os animais são iguais, na iniquidade e na mentira!